"O verdadeiro pecado é escrever para o público." (Paul Valéry). "Blot, blot, good Lod'wick!" (Shakespeare, Edward III). "Dei uma olhada no seu instigante blog/ site... Indiquei seu site para pessoas interessadas na discussão sobre a aporia das artes" - Affonso Romano de Sant'Anna.
A Mácula
REVISTA ELETRÔNICA, JORNAL DE BORDO E POESIAS DE LAURO MARQUES© macula@estadao.com.br........................................Arte+Estética+Poesia+Literatura+Comunicação+Filosofia.
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16.2.05 ESPELHOS-D'ÁGUA
Lauro Marques



Reconstruo assim
a minha fala,
feita de ária
e de poente.
Espelhos-d'água,
para mim
sempre
mais água.
Me afundo
nela.


posted by LAURO MARQUES | 12:29
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14.2.05 Nossa Música
(Plano-sequência para Rubens Rodrigues Torres Filho)
Por Lauro Marques

Godard, Nossa Música. Na grande tela do Cine-Sesc, um lugar ainda possível para se assistir Filmes.

A Imagem é certeza, o Real é incerteza.

Na total imundície, desordem, e completa desestruturação social, urbana, da rua Augusta com a Avenida Paulista, essa é a música que estamos compondo na maior cidade do "país do século XXI", em fevereiro de 2005.

Je est un autre. O Eu é um outro. Eu sou um outro. "Ah, não ser eu toda a gente em toda a parte!" Iluminação profética e danação existencial de ser humano.

O homem desgrenhado sorrindo com a cara na lata de lixo, e escarrando repetidas vezes na parede. "Por que ele não foi fazer isso em outra parte?"

Esse outro, passeia conversando com o amigo, puxando uma carroça na calçada mínima despedaçada por "obras" e entulhada de camelôs e gente de paletó e gravata na fervilhante tarde da Paulista.

O ar é um bouquet de borracha queimada e vômito, e o único prédio limpo, a aparecer quase como uma miragem, num ponto da Avenida, é o imaculada e miraculosamente branco Banco de Boston. A contrastar com o mar de bosta, e como a dizer: I am another.

Purgatório e inferno com reflexos muito distantes do Paraíso. E pessoas jogadas nos cantos dos canteiros abertos, o barro à mostra sem flores. Imagens da atrocidade nossa.

Fico pensando em que guerra foi que a gente se meteu e por que perdemos? Os outros ainda podem sonhar com os inimigos e nós com quem sonhamos?

Godard, sem sentido? Not at all, Mr. Au contraire, c'est justement au contraire. Mal vu, mal dit. Mal visto, mal dito. Está tudo isso lá no seu filme. O melhor da arte é quando sai de si própria, pára de interpretar a si própria, e fala da vida, do que está ao redor, dos arredores.

Um país que não tem grandes poetas merece ser vencido por outro que os tem?
Um país que não escreve poesia não pode ser um país forte.

Rubens Rodrigues Torres Filho

Para quem interessar: um sebo na mesma rua Augusta (não guardei o nome, mas fica ao lado do Mac Donald's, e em frente ao Vienna Café da Alameda Santos com a Augusta) tem dezenas de exemplares de dois livros de poesia de Rubens Rodrigues Torres Filho: O vôo circunflexo, prêmio Jabuti de poesia 1981, e A letra descalça, de 1985. Estão à venda por R$ 2, 90. Embolorados e na última prateleira da última parede da loja. O poeta, estudioso de filosofia clássica, tradutor de Kant, Nietszche, Novalis, autor de O Espírito e a Letra: A crítica da imaginação Pura em Fichte, merece um pouco mais do que isso.

Infelizmente, Rubens teve um AVC. Passou por um bom período com a saúde bastante complicada, mas agora está se recuperando bem, após várias cirurgias.

Dele, de seu A letra descalça, pesco ao acaso, que sempre é acaso objetivo, esse

Plano-sequência

Fugiste, gesto? A vida, essa, totalmente fora de mim.
Alheia como vistas na tela. Cinema dos outros. Uma
moça que me quer bem. Pois bem. A ela, eu diria:
cenas que comovem, vistas e revistas, são sempre. Até
a emoção é cena. A inspiração, que é uma forma de
respirar e deixar passar o ar. Pela boca, também. E o
ar saindo, metodicamente entrecortado de silêncios,
vai formando o que se chama voz, e parece dizer algo.
A presença se adensa. Pérolas, vôos de pássaro sem
pássaro, pouso de plumas, diretamente, no mesmo
ar. Laços, pequenas liberdades, abstratas no espaço
disponível. Cena, cena. Dedos articulando solidões e
seus espaços. Refinada química dos afetos, cristaliza-
cões de um fluxo sem nome. Imagens. Intensidades
mentais. A cena estaria completa. Resta um fio de
voz, buscando rumo para o contorno. E é dele que se
trata, súbito.


-Rubens Rodrigues Torres Filho



posted by LAURO MARQUES | 20:37
Comments: Caos e Ordem na arte
Lauro Marques

Obras de arte parecem emergir do caos para uma certa ordem. Nesse sentido é que elas podem ser ditas: "uma cooperativa compilação de signos semioticamente considerada" (Ransdell 2002: 21*). Um processo em que o produtor e os elementos que compõem a obra cooperam um com o outro, para um resultado "final".
Uma exceção à regra poderia ser feita para algum tipo de arte que poderia ser melhor considerada como exibindo uma multiplicidade de partes desordenadas ou mesmo emergindo da unidade para o caos absoluto. Mas isso é impossível - pois alguma unidade, por mais aleatória que fosse, acabaria por se sobrepor à totalidade de partes desordenadas. Se a resultante disso seria "esteticamente boa" é outro caso. É curioso constatar algo que ocorre nas bienais de arte, onde por mais "caótica" que seja a proposta do artista, é sempre possível demarcar onde começa e onde termina uma obra, por exemplo, seja pelo uso do material, ou por uma cor, etc, que acabam formando verdadeiras ilhas dentro dos espaços desse tipo de exposição. Sem falar nas "salas especiais", onde o conceito de unidade já fica pressuposto. Falar na "caoticidade" da obra, por sinal, já é um traço distintivo de que alguma coisa foi alcançada, e não se trata de um caos absoluto, ou um puro nada. "A diversidade absoluta de um caos não poderia receber a ocasião de nenhuma ação e por conseguinte de nenhum pensamento", como diz Bachelard no recém-lançado "Ensaio sobre o conhecimento aproximado", que foi sua tese de doutorado**. Mesmo no fato de um hapenning "acontecendo" em várias partes ao mesmo tempo, é pressuposto haver unidade. O que não abole o acaso.




*RANSDELL, Joseph (2002). The Semiotical Conception of the Artwork. Caderno do First Advanced Seminar on Peirce¿s Philosophy and Semiotics. Centro de Estudos Peirceanos, COS-PUCSP.
**BACHELARD, Gaston (2005). Ensaio sobre o conhecimento aproximado. Contraponto.


posted by LAURO MARQUES | 11:15
Comments: Duchamp
Lauro Marques

Num pós-escrito de 1981, da segunda edição de seu livro, originalmente escrito em 58*, Beardsley (1981: xx), pondera sobre o que ele chama de "os notórios quebra-cabeças como os 'ready-mades' de Duchamp e os objet trouvés", os quais ele afirma ver "funcionando como declarações sobre arte no lugar de obras de arte propriamente". Duchamp (apud Sant'Anna 2003: 92) mesmo autoriza essa interpretação, em carta reveladora ao dadaísta Hans Richter, em 1961: "Joguei o urinol na cara deles como um desafio e agora eles o admiram por sua beleza estética". Porém não seríamos tão radicais a ponto de afirmar que não haveria nada de estético nesses objetos, que afinal adquiriram um valor em nossa cultura, a ponto de excitar o interesse estético, e a experiência estética deles, e serviram de inspiração para quase todo tipo de produto artístico no século XX, de pintura a instalações. No caso da obra de arte poder ser considerada do ponto de vista da representação, como acreditamos que realmente possa ser, é factível pensar nesses "quebra-cabeças" , como os ironiza Beardsley, funcionando de várias maneiras dentro de uma semiose artística: como partes de uma obra em que um artista se refere implícita ou explicitamente a Duchamp (e a proposta/desafio de que "tudo é arte", e portanto "qualquer coisa pode contar como arte"), como estando no lugar de uma teoria sobre arte, etc. De modo que não há na verdade nenhum quebra-cabeças.


BEARDSLEY, C. Monroe (1981). Aesthetics - Problems in the Philosophy of Criticism. Indianapolis-Cambridge: Hacket.
SANT'ANNA, Affonso R. de (2003). Desconstruir Duchamp . Rio de Janeiro: Vieira & Lent,

posted by LAURO MARQUES | 11:04
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13.2.05 Conto de Terror
Por Randomwalk Larry

― Tá cheio de bicho estranho aqui.

― De que você está falando?

― Eu tô dizendo que tá cheio de bicho estranho aqui dentro...

― Feche os olhos.

posted by LAURO MARQUES | 10:19

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