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22.1.05 Snotgreen Por Buck Mulligan Paulo Coelho para os críticos no "Roda-Viva" da TV cultura: --- Quem leu Ulisses todo? Os críticos: --- ... Ninguém falou para ele que uma só palavra de Ulisses vale mais que toda a literatura de auto-ajuda que ele já produziu. Nem que ninguém precisa ler um livro, qualquer livro, por inteiro. posted by LAURO MARQUES | 13:04 Comments: Ulisses Por Old Bucko ― Vocês têm Ulisses, de James Joyce? Perguntou esse cara na livraria, meio nervoso e ríspido, acentuando a frase no final, quase como se insultasse a vendedora. ― Mas tem que ser em inglês, não serve se for traduzido. Bravo! Pensei. Pensando no tempo que as palavras devem ter ficado rodando na cabeça daquele sujeito. posted by LAURO MARQUES | 00:04 Comments: 21.1.05
posted by LAURO MARQUES | 14:19 Comments: 20.1.05 Um poema do livro de Samuel Menashe New and Selected Poems Publicado em http://www.rattapallax.com/menashe_about_book.htm Tradução de Lauro Marques Pity us Coitados By the sea Entre mar On the sands E areal So briefly Num átimo posted by LAURO MARQUES | 18:18 Comments: RESPONDA SE SOUBER Orual Seuqram Onde a beleza mora Numa célula câncer- Rosa? posted by LAURO MARQUES | 11:17 Comments: In Vino Por Orual Seuqram ― Vai beber todo hoje, meu "filho"? ― São seres vivos, "mãe". Depois de aberto, começa... ― Como nós. posted by LAURO MARQUES | 10:55 Comments: 18.1.05 O espírito do escritor Por Gustavo Castro
Depois que Iasmim leu o poema Educação pela Pedra, de João Cabral, nunca mais foi a mesma. Repetia consigo mesma o tempo todo: Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, freqüentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de poética, sua carnadura concreta; a de economia, seu adensar-se compacta: lições da pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. * Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse, não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma. (João Cabral de Melo Neto, Educação pela Pedra, 1965). Digo que Iasmim nunca mais foi a mesma pelo fato dela achar que por trás das pedras, sobretudo das idéias que elas ensejavam, havia uma filosofia da natureza. Ela via nesse poema uma filosofia de vida extraída das lições que a pedra nos dá em seu estado mudo. Já era comum que ela não separasse a filosofia da poesia, mas ela agora buscava meios para reforçar sua convicção. Foi por isso que encontrou no poema de João Cabral um prelúdio à sua poética, que batizou com o epíteto filosofia do ser tao, conceito que aludia à palavra Sertão e à ontologia do Tao chinês, baseado no livro Tao Te King, de Lao Tse. Digo "conceito" porque Iasmim era o que se podia chamar de acadêmica, o que significa dizer que ela era, pelo menos parcialmente, uma chata. Quando não estava quebrando a cabeça com a geologia, dedicava-se ao estudo da poesia. Era aí que se divertia mais. Para ela, toda poesia continha princípios de sabedoria e, mesmo que não se declarasse como tal, possuía elementos de filosofia. Procurou o seu professor de geopoética na Universidade para que ele lhe ajudasse a pensar esses elementos de filosofia. Mas o professor estava numa defesa de tese e não pode recebê-la naquele momento. Iasmim voltou para casa tentando montar ela mesma o quebra cabeças. Em casa teve uma idéia maluca: porque não falar diretamente com João Cabral de Melo Neto? Ora mais, João Cabral não estava morto? Não pensou duas vezes, foi até o primeiro centro espírita que encontrou na cidade, bateu na porta e pediu para falar com o responsável. Explicou sua dificuldade em montar uma "filosofia da pedra" e disse que só o poeta pernambucano poderia lhe ajudar. Iasmim deu sorte, no dia seguinte, explicou o homem, haveria uma seção onde seriam chamados espíritos de diversos poetas. Na seção anterior haviam invocado Rimbaud e Verlaine, mas eles discutiram entre si, começaram a falar em "seção no inferno" e um quis dar um tiro no outro, daí que tiveram que suspender o contato. Depois chamaram Augusto dos Anjos, mas ele disse muitas impropriedades e, por fim, Auta de Souza, que se comportou muito bem. Naquele dia tentariam fazer contato então com João Cabral de Melo Neto que o homem não sabia muito bem quem era, mas sendo poeta não havia problema, poderiam chamá-lo, sem problema. ― O problema é chamar um se fazendo passar por poeta sem sê-lo. São muitos os espíritos que se dizem poetas e são na verdade falsários, escritores frustrados, atormentados, obsessores dos que escrevem. A senhora não imagina o número de escritores fracassados que tentam algum sucesso no universo das letras desse jeito. ― Nossa, é verdade? ― Sim, e entre os poetas a incidência é ainda maior, por que todos pensam que são poetas... ― Sim, mas para ser poeta não é necessário escrever poesia... ― Vai dizer isso para um espírito de um escritor frustrado... ― Como assim? ― Todos eles querem escrever para fazer sucesso, como fracassam ― e alguns até se suicidam ― viram espíritos atormentados. Já teve gente que ganhou prêmio literário inspirado nesses atormentados. As pessoas gostam dos atormentados. ― Obviamente, existem aqueles que escrevem por escrever. Que não estão preocupados com o sucesso? ― Esses são espíritos felizes. ― Nossa...Ainda bem que alguns se salvam... ― Quem é feliz não precisa fazer arte, moça. Pra que? Quem é feliz tem que viver sua felicidade. Só faz arte quem sofre. Leonardo da Vinci esculpia chorando. Foi ele mesmo quem disse quando esteve aqui. Veja os grandes artistas se não foram grandes atormentados, Artaud, Van Gogh, Dostoiévski, Pessoa, claro, não todos, apenas os melhores. ― Será? ― Certamente que sim. Ah...Moça, existem muitas as classes de espírito de escritores e de artistas. A senhora precisa ver essa classe chamada "escritor", tem cada um que só vendo. Quando eles "baixam" por cá dá um trabalho danado convencê-los que estão mortos. São os mais difíceis. Muitos vivem da sua própria sombra. Enfiados no seu próprio ego já falecido. ― Como assim, que tipo de escritores são esses espíritos, ou melhor, que tipo de espíritos são esses escritores? ― De todos os tipos. Tem o seu João aqui que lê muito, né; seu João é um médium da casa, ele lê muito, mas quando vem um escritor aqui que seu João não conhece e que nunca leu nada deles, eles ficam furiosos, "como?", dizem, "como você não me conhece?", e chamam seu João de burro, ignorante, mas não, seu João, depois que se aposentou, só faz ler, muito mesmo, conhece todos esses escritores, mas tem uns que ele nunca ouviu falar, daí eles ficam aborrecidos...A senhora sabe né, que a maior tristeza para um espírito escritor é nunca ter sido lido. E nem conhecido. ― É que alguns escrevem coisas horrendas. ― Deve ser por isso que se tornam espíritos horrendos também? ― Não sei. ― Deve ser. ― Que tipos de outros espíritos existem? ― Ah...Tem o escritor-feliz, como eu disse, aquele que escreve por escrever, desapegado de si e do seu produto, sua escritura é o reflexo do seu coração, ele é um otimista; tem o escritor-divertido aquele que escreve para alegrar a tristeza dos outros, ele pode não ser feliz, mas quer que os outros sejam, por isso escreve; tem o escritor-filósofo, aquele que escreve para entender o mundo, as coisas, os outros, sua escritura é uma grande interrogação; tem o escritor-contador-de-histórias, meio profissional, vive para contar histórias de efeito, novelas, best seller, etc; tem o escritor-poeta, são os poetas e os que escrevem aforismos e fragmentos poéticos; tem o escritor-visceral, meio suicida, para quem a escritura é morte, cada final de conto, de livro, cada escritura e cada término de escritura é uma morte profunda, que o desgasta, o esvazia, o mata simbolicamente... ― Nossa, quantos tipos... ― E tem mais...O escritor-fantasma, que escreve livros para os outros; o escritor-ególatra, que escreve para satisfazer o seu ego e se achar o tal; o escritor-besta-que-só, que quer ganhar prêmios literários; o escritor-sapato-alto que olha para os outros como se fossem um nada; o escritor-frustrado, legião formada por jornalistas, literatos, professores, entre outros; escritor-humilde, escritor-provinciano, escritor-de-sucesso, escritor-que-nunca-escreveu-um-livro e muitos outros tipos de espíritos que aparecem aqui no centro. ― Nossa, diante de tantos tipos, será que eu conseguirei falar com o verdadeiro João Cabral? ― Talvez moça. Venha aí amanhã. [Leia Também: Poema Sem Salvação de Lauro Marques dedicado a Cabral] posted by LAURO MARQUES | 11:46 Comments: 17.1.05 O Poema Glosado e os Comentários de Fábio e Soares Feitosa Em 12 January , 2005 Lauro Marques escreveu para Fabio Barbalho Leite Fábio, parabéns pelo poema (abaixo) e pela inspiração, "adiscurpe a sacanagi", vai aí abaixo um poema do Cabral que eu adoro. Repare a precisão inigualável da expressão. Foi sem dúvida o maior dos nossos poetas. abraços Lauro A EDUCAÇÃO PELA PEDRA João Cabral de Melo Neto (Recife PE 1920 - Rio de Janeiro RJ 1999) Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, freqüentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de poética, sua carnadura concreta; a de economia, seu adensar-se compacta: lições da pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. * Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse, não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma. http://www.academia.org.br/cads/37/joao2.htm O Poema Glosado (*) ver post anterior Da norma e das falas Por Fábio Barbalho Leite A norma é uma fala. Quem a faz tem sonhos e desejos. O povo - que tem sonhos e desejos... O povo sabe falar - mas faz tempo que é difícil povo e norma se falarem. E fica angusto o sonho e o desejo do povo serem sonho e desejo na norma. E a norma empobrece, pois precisa de muitas falas dentro dela. Empobrecida de sonho, desejo e falas, a norma pouco conversa com a realidade... Há que ter uma cartilha pra ver o povo falar a fala da norma. Não pra que o povo fale bonito - isso, ele já faz - mas pra que seja mais useiro ver a norma falar a fala do povo. Prenhe da fala do povo, - a norma dará luz. Comentário de Fábio Lauro, Ótimos teus poemas, mormente, maiormente, o a Zé Limeira (*) ver post anterior . Outra ótima foi vc ter trazido João Cabral, pois fiz esse poeminha sob encomenda (da série Poesia Aplicada à Prática) de um texto para apresentação de um manual, daí caiu em mim fazer um poema e tive como inspiração o jeito de João Cabral. O resultado achei bom mesmo, conquanto politicamente ingênuo ou, talvez algo demagógico. Conheço de passagem esse poema da Educação pela Pedra. Magnífico. João Cabral é um instante de culminância, só me pejo de dizer o maior por achar injusto não com os outros poetas mas todos os outros tantos incríveis, belos, fortes, inigualáveis poemas escritos em nossa língua. Já o teu poema sobre a norma me lembra uma cena forte, central em Terra em Transe (Glauber Rocha) em que um ator (acho que Paulo Autran), após ser provocado a deixar o povo falar e ouvi-lo, aponta o microfone em que, no papel de político falava até então, e aponta o microfone para um aglomerado de gente, para ouvir o povo e se escuta... um grande, um incomensurável, terrível silêncio... (Nelson Rodrigues ficou extasiado com essa cena, escreveu em crônica.) Quer ver uma lição de interpretação ou exegese sistemática (um método interpretativo sempre discutido em direito, mas nesse rincão vivemos todos a interpretar/construir e aplicar textos normativos). "Rios sem discurso Em situação de poço, a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada, estanque no poço dela mesma, e porque assim estanque, estancada; e mais: porque assim estancada, muda; e muda porque com nenhuma comunica, porque cortou-se a sintaxe desse rio, o fio de água por que ele discorria." Desconfio que é só passagem de poema maior, não sei ao certo. Teria que verificar. Tirei de um livro do José Luiz Fiorin. Abraços, Fábio O comentário de Soares Feitosa Lauro, isto é uma beleza! (*) ver post anterior Num determinado momento, de tanto negarem a Poesia, o Tejo (e seu Ze Limeira) foram a única esperança. Campeio um verso da estirpe que a memória, já desgastada neste véio, perdeu. Está todo quebrado, faltando coisas: Quando eu vinha do Canindé, avistei um bode mocho, numa moita de mofumdo cum chocalho no pescoço fiz então um rapapé a ver se o bicho corria ele fez que num me via então eu larguei chumbo no coração de Maria. Depois me diga se sabe o supremo poema do caso sisudo. É poemão! Talhado à perfeita! O poema do caso sisudo é sisudo mesmo, o super-poema, com as rimas do lado de fora, invenção do Coronel, em Salo, a verdadeira rima que é a do lado de fora! As palavras exactas! SF posted by LAURO MARQUES | 10:49 |
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