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30.7.04 O problema da arte -3ª VERSÃO DESSE POST LAURO MARQUES escreveu: Peirce diria que tudo aquilo que "conjunta partes díspares de modo a possibilitar a sua comunicação e interação" deveria ser encorajado; sistemas que, ao contrário, se contrapõem a um tal aumento na continuidade [sígnica¹], deveriam ser desencorajados. Os aspectos irracionais, arbitrários, destrutivos, dos componentes individuais, são [ou deveriam ser] descartados na evolução do crescimento da razoabilidade. A arte não pode ficar passivamente na condição de sintoma, mas deve incluir uma reflexão sobre o mundo. Resposta de ARS: Lauro indiquei seu site para pessos interessadas na discussão sobre a aporia das artes. Sobre Pierce, seria um longo papo. Ele tem seu valor, é claro. [...] Åproveito, e para aproveitar a deixa, lhe mando uns textos que tinha escrito nO globo e que tratam também do que está falando. Assim o diálogo,do lado de cá, não fica tão cambeta. Abraço, ars REINVENTANDO O AMANHÃ 16/08/2003 Mesmo desconfiando das utopias, é preciso redirecionar a História 'A reinvenção do mundo: um adeus ao século XX", de Jean-Claude Guillebaud, que a Bertrand Brasil acaba de lançar numa boa tradução de Maria Helena Kuhner, é um livro útil para se repensar a arte e a cultura de nosso tempo. De uma certa maneira, tem muito a ver com a análise que venho desenvolvendo nessa série de artigos que envolvem a modernidade e a pós-modernidade. Jornal: O GLOBO Autor: Affonso Romano de Sant"Anna Editoria: Prosa & Verso Tamanho: 987 palavras ULISSES E ESSE 'MAL ESTAR' 20/09/2003 Há os que gostam da lama ou de serem transformados em porcos Poderia começar relatando a história de Ulisses e Circe, mas para maior eficácia da leitura, deixo-a para daqui a pouco e, preparando sua interpretação, vou dizendo que um dos argumentos mais banais dos que estão se espostejando no pântano da ideologia contemporânea, chamada pós-modernidade é dizer: estamos gostando muito da lama, do lixo, da porcaria em que estamos metidos. Jornal: O GLOBO Autor: Affonso Romano de Sant"Anna Editoria: Prosa & Verso Tamanho: 1019 palavras A ANTIDROGA DE ULISSES 27/09/2003 Perceber o óbvio é mais difícil que ser enganado com uma fantasia Conforme vimos no capítulo anterior deste folhetim crítico, Alberto Moravia em "Recordações de Circe" ("Contos dispersos", ed. Bertrand Brasil), apresenta a revolucionária versão de que os marinheiros de UIisses foram se transformando em porcos por opção pessoal e que achavam uma maravilha comer lavagem. Enfim, Circe não os obrigou a nada, não fez nenhuma mágica com aquela varinha ou bebida. Apenas lhes deu a chance. Jornal: O GLOBO Autor: Affonso Romano de Sant"Anna Editoria: Prosa & Verso Tamanho: 919 palavras Textos com Copyright, podem ser acessados a partir da página do autor no Jornal O Globo Resposta de Lauro Marques Caríssimo Affonso, excelentes esses seus textos, e me deixam lisonjeado, pois percebo que não estou tão à deriva, como pensava (para usar da metáfora náutica, a mim também tão querida, pois "viver não é preciso", é errôneo e incerto, mas "navegar é preciso", parte-se de um porto a outro, não se navega a esmo, nem os nossos descobridores andavam sem bússola). Lembrou-me também "Dormir ao Sol", o livro do escritor Argentino Bioy Casares, em que pessoas são transformadas em... não posso contar, não sei se leu, com certeza sim, mas se não, não serei eu a estragar a estória. Mas a moral, no sentido da Fábula, é o mesmo, pessoas há que preferem dormir ao sol, por preguiça... porque isso é tão mais preferível do que raciocinar, preferiam se ver animalizados (o que no final das contas, sejamos justos, é injusto para com os animais. Você já viu algum animal fazendo performance?). Meu único senão é como lidar com o problema do mal. Como podemos afirmar com certeza que algo é certo? E em arte isso seria possível ou mesmo desejável? Não poderíamos estar sendo confundidos por nossos julgamentos morais? Há algo nesses artistas contemporâneos que nos ultrapassa, e que poderia servir para o crescimento da própria noção daquilo que consideramos o certo agora, daquilo que seria a Ética? Pode a Ética também evoluir? Grande senão. Baudelaire, Lautréamont, Sade. Eu mesmo ---sem querer me igualar a ninguém, obviamente--- tenho lá meus ímpetos destrutivos, que gostaria de transferir para a poesia. O que fazer de Sade? Por outro lado, os chamados pós-modernos são os cultores do óbvio, aquilo que os outros poetas, romancistas, pintores, já tinham feito, metaforicamente, eles repetem ao pé da letra. Então [se X pintou um boi esfolado], o [outro vai e expõe uma vaca cortada ao meio e isso é 'moderno']. Abraços, Lauro Marques "Poste-Escrito" (como diria Millôr): Um artista que se contente em ser um mero espelho ou sintoma de uma doença na qual esteja inserido, não estará "fazendo jus" ao "esplêndido privilégio" (Henry James), à liberdade que foi conquistada pela arte: sua obra não pode ser considerada "perfeita", e dificilmente poderá ser "interessante". ***** Nota (1) A lição da Estética peirceana é que "Generalização, a disseminação de sistemas contínuos, em pensamento, em sentimento, em ação, é o verdadeiro fim da vida." posted by LAURO MARQUES | 19:45 Comments: 27.7.04 O problema da arte Cassiano Terra Rodrigues escreveu: Lauríssimo: Concordo com tudo o q o ARS diz. Acho q é isso mesmo. O q não significa q estabelecer limites seja uma coisa simples, e q estabelecer uma poética seja uma coisa q deva ser tomada como fim em si. Eu não sou partidário do pós-pós-qq coisa de hoje em dia, q diz q tudo não passa de literatura e q ética é uma questão de solidariedade. Entre Rorty e Deleuze, eu prefiro Deleuze, q pelo menos tem uma ontologia, uma rizoma-ontologia, digamos assim (q eu tb gostaria de ter mais tempo pra entender...). Rorty, por exemplo. Se não há parâmetros e tudo não passa de discursos, é tudo uma questão de literatura, discursos q não dizem mais sobre a realidade do q o Homem Aranha do cinema (pra pegar um exemplo q pode dizer mutia coisa sobre o mundo em q vivemos, mas q está longe de ser uma obra de arte, digamos, exemplar), então, qdo se estiver com câncer, não se vá ao médico, basta ler um romance, mesmo pq ninguém sabe aidna a cura do câncer. Bom, eu não acho isso. Acho q se está doente, deve-se ir ao médico, mesmo q ainda não haja cura pra muitas doenças e q a medicina ocidental não seja a verdade absoluta. E no entanto, dizer q um discurso literário não tem objetividade é, pra mim, de um obscurantismo cimérico sem centelhas de luz, diria William James. Quais são os limites pra arte? Eu não sei responder essa pergunta. Mas se a arte é um sintoma, dizer q não se pode chamar tudo de arte é dizer q nem tudo é permitido na vida q vivemos. Mas se a vida q vivemos é feita de transgressões e hipocrisias, impôr limites aos sintomas, será q ajuda a ver alguma luz no fim do túnel? Pegue o exemplo do estupro. Qtas pessoas são estupradas cotidianamente, com a conivência do status quo? Eu tb acho q isso não justifica um estupro ser chamado de performance. Se a polícia é corrupta, o é pq há interesse em q seja, pq ninguém quer parar de cheirar pó em Ipanema ou nas boates da Vila Olímpia, mas ninguém quer saber da vida na favela e bandido se mata a tiro. Então, eu tb concordo q precisa haver limites, mas os limites à arte como se a arte tivesse de ter limites em si mesma (não sei se é essa a opinião do ARS, creio q não, mas não consegui entender pela entrevista), me parece ingenuidade. É como querer acabar com a dor de cabeça cortando fora a cabeça. Pra q haja limites à arte, q é sintoma, meio de expressão (assim entendida como sintoma, me parece), é preciso haver limites à sociedade de onde a arte floresce, onde estariam as causas. Se uma arte doentia e imbecil é sintoma, então, ataquem-se as causas. O q eu não concordo é com a tentativa de definição de uma poética prévia a ser obedecida, o estabelecimento de regras a priori e independentes do fazer artístico. E aí, entramos num círculo vicioso, pq pode vir um poeta da estatura de um T.S. Eliot e defender o new criticism, q é, quer se goste ou não, uma forma de alienação histórica (vide Adorno) E tb uma teoria da arte (vide o próprio TS Eliot). Então, acho q a questão fundamental não está na arte, mas é anterior: o q significa a liberdade de criar o possível? o q significa a liberdade de criar? O q significa a liberdade de ser diferente? Se a gente assumir a postura dos estudos culturais aqui dos EUA (não existe mais luta de classes, a história acabou, não existe verdade, tudo é discurso etc.), muita gente vai morrer, muito mais do q se morre hj. Mas se a gente assumir uma postura q diz o q é a verdade, como deve ser a vida humana pq há uma verdade, o risco de se cair numa ilusão iluminista é grande. El sueño de la razón produce montrios. Algum esclarecimento é desejável, nenhum é aceitar a barbárie, mas o q é esclarecimento? Por enquanto, eu só pretendo chegar a um lugar com isso tudo, q é te dar mais um argumento pra ler Kant, q já fazia essa mesma pergunta há uns 250 anos... Eu não li o livro do ARS sobre Duchamp, e tb sei pouco de Duchamp. Mas tenho carcomido (desculpe, mas eu adoro esse caco infame...) q Duchamp conhecia muito bem a tradição, conhecia muito bem as regras das beaux arts, e q a sua transgressão, me parece, tinha muito mais o sentido de justamente indicar a vacuidade da transgressão tomada como valor, do q tomar a transgressão e transforma-la em valor supremo. Posso estar enganado, mas não tenho condições de parar tudo agora e sustentar um debate, pq não tenho tempo (infelizmente!!!!) pra estudar arte...Mas note q ele bate na mesma tecla q eu bati, na determinação de o q é ou não arte pelo mercado, pelas galerias, pela grana. No final, meu amigo, money talks, e isso é problema da arte, mas antes é problema de quem não tem dinheiro e faz arte pra sobreviver (literal e figurativamente, se vc quiser). Então, uma vez vc me perguntou se eu não achava q esse papo de luta de classes não estava ultrapassado, ual, acho q se vc for a São Mateus vc vai sentir o ódio q emana da inveja social, depois me refaça a pergunta... Q a herança duchampiana se tenha transformado em besteirol, bom, essa é uma história de q temos de dar conta, mas me parece q não se pode imputar a Duchamp toda a culpa, e um exemplo análogo q eu tomo seria de q tb não se pode imputar a Marx a culpa pelo q se tornou a URSS. Então, a pergunta q eu faria ao ARS, seria se ele acha q dá pra se encontrar em Duchamp esse cultivo da transgressão como valor em si. Eu, ainda aprendiz de estudante de arte, acho q esse cultivo da transgressão é anterior a Duchamp. Há críticos, como a Marjorie Perloff, por exemplo, q tentam traçar uma linha genealógica da "indeterminação" (não sei bem o q isso significa) na arte desde Rimbaud, passando por Duchamp, os futuristas, Pound, até Cage e Meredith Monk, por exemplo. A defesa q se faz disso, é outra história. Mas identificar uma linha genealógica já é um trabalho q vale a pena pelo menos ser notado, pq vai justamente na direção de tentar traçar limites e entender como os limites se foram traçando. Eu gostaria de ouvir o q o ARS tem a dizer sobre Pierre Boulez, por exemplo, inclusive pq mesmo com todo Adorno eu não sei como entender Boulez, e o ARS é (creio) uma boa pessoa a se ouvir a respeito... Cass. Resposta sucinta de Lauro Marques: Cassianíssimo, O que eu acho disso tudo é que a arte cada vez mais não pode evitar a discussão ética, e nesse sentido a estética como propôs Charles Sanders Peirce, como uma ciência normativa, do que deveria ser, passa a ser bastante atual. O fato de sabermos que o mercado é quem manda não desautoriza a discussão sobre os reais critérios para decidir sobre o que é ou não é esteticamente bom, muito pelo contrário. "As leis reais de produzir o admirável" (Parker), ainda que estejamos muito longe disso. O entendimento de que o artista não é "uma categoria enlouquecida, solta no tempo e espaço sem nenhuma pertinência consigo ou com o sistema." (ARS) Trata-se de um acaso extremamente objetivo o fato da frase "POLIMORFIA DA PERVERSÃO" aparecer no poema de Wally. Fernando Pessoa é melhor do que Paulo Leminski apesar de ambos serem bons, e eu gostar de ambos igualmente. A impressão que causa FP contudo é mais forte, mais intensa, mais complexa e mais duradoura. Isso é um critério objetivo, um "sentimento razoável", ainda que eu concorde que não seja suficiente (eu posso mudar de idéia), para um julgamento subjetivo. Sobre Duchamp, não li mas assisti palestra dele. O fato é que Duchamp soube se aproveitar da ingenuidade dos que aceitaram sem mais sua "proposta transgressiva" de que "tudo é arte", vendendo a preço de ouro suas cópias do "gesto original" do mictório. As consequências práticas são essas que vemos no exemplos de ARS (arte em latim). Eu preciso ler mais e estudar mais sobre arte e estética, afinal esse é o meu tema, e sei que tragicamente não terei tempo. A discussão é quente, mas eu não tenho medo do inferno. Continuamos a discussão no blog, no GAAC e nos emails. Abraços Lauro [...] Porque a alma humana é um abismo. Eu é que sei. Coitado dele! Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma! Mas até nem parvo sou! Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido. Não me queiram converter a convicção: sou lúcido! Já disse: sou lúcido. Nada de estéticas com coração: sou lúcido. Merda! Sou lúcido. Álvaro de Campos [Fernando Pessoa -Obra Completa] posted by LAURO MARQUES | 12:46 Comments: O Problema da arte Affonso Romano de Sant'Anna escreveu: Lauro, dei uma olhada no seu instigante blog/ site. A propósito do que disse em O problema da arte, envio-lhe essa entrevista recente sobre as polimorfias da perversão, que talvez ajude a entender um pouco do caos em que andamos. Abraço,ars ENTREVISTA PUBLICADA EM A POLIMORFIA DA PERVERSAO, revista do Circulo psicanalitico do Rio de Janeiro-Cadernos de Psicanálise- nº 16, anto 2003, , ano 25( junho de 2004) 1. Você considera a cultura contemporânea perversa? R . Claro que perversão sempre existiu nas diversas culturas, mas agora parece estar ocorrendo uma exacerbação que merece análise. E uma análise disto pode ser feita através da arte de nosso tempo. Primeiro é preciso entender que a arte é sintoma, o grande sintoma, sintoma exemplar, a partir do qual se pode analisar nossa época. Vivemos um tempo em que a arte, sobretudo as "artes plásticas' se apresentam (sintomaticamente) como um doente terminal. E ao dizer isto estou retomando o que apontei em dois livros recentes Desconstruir Duchamp ( Ed. Vieira&Lent) e Que fazer de Ezra Pound (Imago) e reafirmando que é preciso uma intervenção transdisciplinar para compreender essa questão,. pois ela se apresenta como algo tão rico e complexo, que um ramo só do conhecimento não dá conta do diagnóstico. A um doente terminal deve se lhe trazer uma equipe de especialistas. Neste sentido a psicanálise tem muito a nos dizer. Exemplifiquemos. Desde os anos 70 do século passado veio se intensificando e se expandindo na arte, um tipo de comportamento (ritual, performance, happening) explorando, às vezes, o lado sádico e masoquista da existência. O "teatro da crueldade" a que se referia Artaud, parece ter chegado ao seu paroxismo. Isto vai desde obras/espetáculos onde, por exemplo se incendeia uma galinha, fatia-se um boi, tortura-se um inseto, até a utilização do corpo humano em cenas de mutilação. Assim, num festival de arte na Colômbia, exercitando a body art o artista Pierre Pinoncelli corta a falange de um dedo da mão esquerda. Noutra ocasião , outro artista Rudolf Acwarzkogler- anunciou amputar o pênis polegada por polegada( descobriu-se depois que havia praticado uma fraude). Por sua vez Cris Burden pede que lhe dêem um tiro de espingarda no braço passando a exibir as marcas como lembrança da obra. Não posso deixar de citar a figura de Orlan, mulher que se especializou em ser operada e filmada, e em transformar todas as cirurgias , digamos, estéticas, em obra de arte. Por sua vez a performatica Marina Abramovic , em 1972, apresentou a obra Ritmo 0, que consistiu em ficar parada junto a uma mesa sobre a qual havia alguns objetos : uma arma, um machado, mel,tinta, perfume, baton, azeite, etc. Ela ficava ali exposta e à disposição dos expectadores que tinham num cartaz orientação de como atuar naquela obra de arte: "há 72 objetos sobre a mesa que podem ser usados em mim conforme desejado. Eu sou o objeto". Como noticiou a imprensa, "seis horas depois suas roupas haviam sido rasgadas e a arma tinha sido apontada para sua cabeça". Assim ela apenas radicalizou outra performance quando, certa feita, passou 12 dias na Sean Kelly Galery totalmente exposta à curiosidade do público enquanto passantes, bêbados, operários curiosos viam todas as suas intimidades. O mecanismo de justificação de seu comportamento/obra é revelador e dispensa comentários: "Você não pode imaginar o quanto eu chorei naquela performance. Essa tristeza vem porque eles projetam a sua própria tristeza em mim e eu a reflito de volta. E eu chorava de forma mais triste, para que eles fiquem livres." Poderia ir me alongando em outros exemplos, porque falam mais fortemente. Lembro a utilização de cadáveres e fetos. Enquanto o canadense Richard Gibeson fez brincos com ossos de fetos de três meses, o canal 45 na Inglaterra apresentou um programa com o título "Autópsia ao vivo', no qual, em torno de uma mesa , o professor Gunther von Haggens e seus assitentes retalhvam um cadáver. Iam tirando as peças do indigente, comentando o estado do figado, pâncreas, massa encefalica etc. Esse Haggens descobriu um método de plastificar os cadáveres e realizou algumas exposições com esses seres mortos que passaram por esse processo (pós-moderno) de mumificação. Aí havia gente com o ventre aberto, fetos, animais pela metade, enfim, aquilo que se chama de "museu de horrores". Diria que num estudo mais abrangente se poderia ir classificando as diversas perversões, agora relacionadas com o material usado, como por exemplo: a) Esperma- Duchamp se masturbou e o esperma que caiu numa chinela virou obra de arte hoje num museu. Vito Aconti, ex-marido de Marina Abramovic montou numa galeria uma instalação chamada Seedbed, que consistia em que ele ficasse sobre um estrado se masturbando durante oito horas por dia, duarante duas semanas, dizendo em voz alta todas as fantasias que os assistentes lhe despertavam. b)Sangue- Pollock deixou gotas de sangue em seus quadros violentamente pintados enquanto o escultor inglês Marc Quinn fez a escultura de uma cabeça humana com sangue humano. (A escultura acabou se derretendo pois alguém se esqueceu de mantê-la na geladeira. Parece que depois a refizeram). Artistas mulheres também usaram o sangue menstrual em algumas obras. E Michel Journiac fez uma hóstia com seu próprio sangue. E na Feira Internacional de Arte Contemporânea, em Paris, em 1975, a perfomance de Herman Nitsch, patrocinada pela galeria Rodolf Stadler, consistia numa série de missas negras. Resultado: no dia seguinte ainda havia 2 cm de sangue sobre os 250 metros da galeria. c) Fezes & urina- desde os tempos de Kurt Schwitters, nos anos 20 do século passado, suas obras chamadas de Merz, acumulavam restos e lixos com urina e merda. Ele chegou a declarar: "Sabem vocês o que é a arte? Um pavilhão de merda, isto é que é a arte". Andy Warhol declarava, para efeito de marketing, que usava a própria urina como fixador de seus trabalhos. Não estranha que nos anos 60 Manzoni tivesse produzido 30 latinhas contendo a intitulada Merda do artista, que ele pedia fossem sempre negociadas ao preço do ouro no mercado. Em 2002 uma dessas latinhas foi comprada pela Tate Galery por quase um milhão de libras. E uma polêmica provocada pelo publicitário Saatchi, em Nova York, derivou do fato do pintor patrocinado por ele -Ofili, ter usado cocô de elefante numa pintura da Virgem. Por sua vez, o artista André Serrano apresentou um Cristo imerso em urina. A psicanálise dispõe de instrumentos para estudar esses comportamentos e obras. E há algo mais complexo, mas que tem que ser enfrentado: em que momento o estético e o artistico sucumbem diante da da supremacia da perversão, do exibicionismo, do narcisismo autoflagelador ou em exercícios sado-masoquistas? Em que momento a perversão se torna elemento dominante e o estético passa a ser secundário e até ausente? A crítica de arte tem se acorvadado diante dessa questão e caiu na armadilha teórica de que as categorias "artístico" e "estético' não mais existem. O pensamento crítico está intimidado e acha-se encurralado desde que aceitou o sofisma duchampiano de que é arte tudo aquilo que alguém chama de arte. Um enfoque transdisciplinar como o que apliquei em Desconstruir Duchamp mostra a falácia daquele e nos possibilita perceber melhor a ambiguidade entre perversão e criação artística. P- O tema "transgressão" é utilizado por diferentes discursos . De que maneira isto envolve questões éticas? 2. Aqueles exemplos anteriores desembocam automaticamente nas questão da transgressão tanto social quanto artística. Já nos anos 60 e 70 surgiram vários ensaios enfrentando a questão das rupturas sugeridas pela modernidade, que chegaram a um impasse: a ruptura da ruptura, onde os termos se anulam, como a cobra que devorasse o próprio rabo. A ruptura pela ruptura leva ao caos e não aos cosmos. Anular todos os códigos é anular a linguagem e a mensagem, é inviabilizar a vida social e retornar à barbárie, à horda primitiva. Ruptura como atitude viciosa aproxima-se do vazio e da morte. Tanto a arte, a educação e a prática social e política, no século XX, conheceram as armadilhas da transgressão. Testemunhamos as aporias a que chegaram as vanguardas não só ao chegarem ao branco sobre o branco com Malevitch, mas até mesmo na patética história do pintor japonês que colocou uma tela sobre o passeio e se atirou de cima de um edificio imprimindo seu suicidio nessa tela como o seu último e definitivo trabalho. Aqui a transgressão não é mais simbólica, mas o limite da transgressão física e metafísica. Também a educação (quem nao se lembra de Summerhill?) e na vida sócio-política (as inúmeras revoluções), experimentamos todas as formas de transgressão. Com efeito, a formação tanto do sujeito, do artista quanto a de um país pressupõe um processo de individuação, de auto-afirmação onde são testados os limites do sistema. Enquanto conhecimento dos limites possíveis da libertade, a transgressão é parte natural do amadurecimento do indivíduo ou do sistema. Há que transgredir até mesmo para se conhecer melhor as regras e a si mesmo. Contudo, chegou-se a cultuar a transgressão de tal forma que a transgressão passou a ser a norma, a regra, a palavra oficial. Por isto, não estranharia se criássemos o "Museu da Transgressão', tanto ela foi oficializada, perdendo sua força original. Hoje os tansgressores entraram para a história da arte, os guerrilheiros chegaram ao poder, mas sobretudo os "marginais' estão no "centro", localizados em todas as instâncias a ponto de o tráfico de drogas, por exemplo, alardear por seus porta-vozes que "está tudo dominado". Portanto, é necessario tirar o toque romântico ingênuo desses termos "transgressor" e '"marginal". Nos anos 60 eram uma coisa, quarenta anos depois, outra. Estão aí os depoimento dos ex-guerrilheiros. Estão ai os depoimentos dos músicos que se entregaram às drogas nos anos 60 e 70. Não posso me esquecer da carta de uma leitora, a propósito da crônica "Nós,.os que matamos Tim Lopes", onde ela me relatava que com seu namorado, nos anos 70, enquanto drogada, viciada e traficante, testemunhou horrores semelhantes aos narrados na história daquele jornalista . E hoje tentando passar alguma experiência para a filha, ela que foi ao fundo do poço, era vista como "careta', pelo simples motivo de querer estabelecer um ou outro limite na vida da adolescente. Transpondo isto para o lado artístico, lembro-me sempre de Manuel Bandeira me dizendo (quando o procurei adolescente ainda com uma série de poemas muito modernos), perguntando-me se tinha algum soneto. Quem não conhece a tradição não tem condições de transgredir. Como dizia Mário de Andrade é preciso conhecer gramática para poder desrespeitá-la, mas sabendo o que se está fazendo. Nisto tudo está a questão da ética.Vivemos numa sociedade, onde como o disse Jean-Claude Guilhebaud, em A reinvenção do mundo (Ed. Bertrand Brasil), falar de ética soa logo como algo conservador. E, no entanto, estamos falando apenas de sistêmica, ou como quer certo ramo da epistemologia contemporânea, de paradigmas. E paradigmas existem em todas as manifestações vivas e sociais. Sem eles é o caos e a morte. Foi Nathalie Heinich quem mais sistematicament estudou e exemplificou a questão da ética dentro das aporias da arte contemporânea, enquanto reflexo das perplexidades que vivemos. A questão básica lembra aquele filme "Cidadão acima de qualquer suspeita". Pode-se indagar: é o artista um personagem acima de qualquer ética? Pode ele, como um bebezão, fazer o que bem quer, quando quer, com quem quer? Na verdade, é como se concebêssemos um sistema onde todos os elementos obedecessem à lei da gravidade, menos um, o artista. Estabeleceu-se que ele é uma categoria enlouquecida, solta no tempo e espaço sem nenhuma pertinência consigo ou com o sistema. É assim, que Nathalie lembra complexos problemas de liberdade de expressão em conflito com os direitos alheios. Como exercício das questões de ética, pode-se indagar , por exemplo, sobre as consequências sociais e éticas de se manipular debochadamente símbolos cristãos, nazistas, judeus e islâmicos. A questão da ética e da transgressão esbarra até mesmo nos limites da Lei e do Direito. E aí é que as questões estéticas, deixam de ser só estéticas para serem éticas e sociais. A estética moderna que levou ao extremo a técnica a "apropriação" tem sérios problemas a resolver, que escapam à estética ou à arte, provando, de novo, que a arte não é uma categoria solta no tempo e no espaço. Surgem, então, artistas como Tony Shafrazi que ficaram conhecidos por vandalizar obras alheias como a '"Guernica", outros que foram processados por reproduzirem ou se apropriarem de obras alheias sem autorização ou, até mesmo, o caso sintomático de Hervé Paraponaris que fez a exposição intitulada "Tudo aquilo que roubei de vocês", onde expôs objetos roubados de pessoas e artistas conhecidos seus. Muitas das vítimas não gostaram, chamaram a polícia e a questão que sepretendia artística foi parar nas mãos do Ministro da Justiça francês. A quem acha que a liberdade deve ser sem limite e que ao artista tudo é permitido, poder-se-ia propor uma questão a resolver: e se um artista decidisse dentro de seu continuo de processo de transgressão que o estupro é uma obra de arte, o que fazer se ele levasse uma menina a uma galeria e, numa performance, a estuprasse? Pode ser o estupro considerado uma obra de arte? E se um outro artista levasse a filha a um museu e a violentasse na frente de todos alegando que o incesto é uma obra de arte? Talvez alguém, confirmando que voltamos à barbárie e à horda primitiva, diga que isto deve ser admitido. Mas se alguém ponderar, que isto não é admissivel, é sinal de que se está já colocando algum limite. E colocar algum limite é a grande audácia em nossos dias. Por isto, é necessário retomar uma frase que tinha muito charme nos anos 60: "é proibido proibir". Eis uma frase ingênua e perversamente autoritária. Tão totalitária quanto "tudo é relativo" , que é uma frase, a rigor, absolutista. Por isto, depois de termos chegado aos limites maximos da transgressão, aproveitando um slogan ambíguo de um artista francês, o desafio hoje é encarar essa frase: "É legal dizer não'. P-Como definir ou o que dizer das "novas sexualidades'? 3-Não sei se as "novas sexualidades' são tão novas assim. Elas já estavam em Pompéia, estavam na Grécia e em muitas tribos primitivas. Nosso olhar curto tende a achar que a história começou conosco ontem. Estamos coma mania que a história começou nos anos 60 do século passado. E a visão esta ficando tão curta, que agora é tudo definido por décadas: a moda,a literaura, o comportamento sexual. O que talvez se devesse discutir é como a globalização, a mídia e o capitalismo selvagem estão transformando os indivíduos em objetos, sujeitos desterritorializados, esvaziados de qualquer significado histórico, realidade que encontra respaldo nas teorias pós-modernas que pregam um ingênuo e predatório desconstrutivismo, que tem seu charme acadêmico, mas que acaba por endossar as tragédias sociais, pelo receio de traçar limites, ainda que dialéticos e estratégicos. Na sociedade do espetáculo, da superficialidade, do Big Brother, dos 15 minutos de fama, da mistura entre o público e o privado, do consumo alucinado, do flash e da droga, nessa cultura, o sexo transformou-se mais que nunca em mercadoria e, como mercadoria, das mais banais. E é como sintoma que esse fenômeno deve também ser considerado. Uma coisa é o direito de expressar a sua sexualidade e outra a conversão disto em simples mercadoria espetaculosa. posted by LAURO MARQUES | 11:43 Comments: O Problema da arte Cassiano Terra Rodrigues escreveu: Sobre a arte, eu entendo o q vc quer dizer, mas a questão é: a arte não precisa de nada, só de si mesma. Nesse sentido ela é um fim em si e não obedece a regras alheias. E por isso mesmo a arte do século XX é uma grande salada russa, no sentido de q não dá pra afirmar categoricamente nada sobre a arte contemporânea, pq o artista pode escrever uiauiauai bossoré e dizer q é um poema, e quem vai dizer q não é? Se é bom ou não, são outros milhões. Qdo vc fala em regras da arte, eu entendo, há técnicas, há convenções, há tradições, mas vc corre o risco de ter de definir um cânone, e não há mais cânones há muito tempo, alguém pode vir e definir outro. Além do q, quem dita as regras da arte é o dinheiro, ultimamente, o q não impede q ousiders sejam artistas sem dinheiro, ou q quem não tenha acesso ao dinheiro faça arte, mas a ligação do "bom gosto" artístico (o q é melhor ou pior) está ligado fortemente ao mercado. Agora, se vc não está numa galeria chic e cara, se vc não tem quadros no museu, se as suas obras não custam caro, se os seus livros não vendem ou os seus poemas não estão nas antologias, isso quer dizzer q vc é menos artista? Mercadologicamente, sim. Mas verdadeiramente? O q é verdadeiro em arte? A arte precisa dessa pergunta? Pierre Bourdieu, vide, vc conhece. Assim, pq Fernando Pessoa é melhor do q Paulo Leminski? Ou, outro exemplo traiçoeiro, pq Duerer é melhor do q Basquiat? O q eu quero dizer é q estabelecer regras pra arte, ou dizer q a arte tem regras q determinam pq a arte deve ser baseada no senso comum, implica numa concepção de arte, numa determinação de uma poética, q pode ou não ser seguida. Como vc resolve esse problema? Eu, particularmente, acho q Auden não entendeu o surrealismo - quem tem mais regras q os surrealistas? Pense num artista como Duchamp. Duchamp, a arte é impura e não tem regras. E isso já é uma concepção de arte. I am here And I have nothing to say And I am saying it And this is poetry John Cage Information is not knowledge knowledge is not wisdom wisdom is not truth truth is not love love is not music music is the best Frank Zappa Exterior Por que a poesia tem que se confinar? às paredes de dentro da vulva do poema? Por que proibir à poesia estourar os limites do grelo da greta da gruta e se espraiar além da grade do sol nascido quadrado? Por que a poesia tem que se sustentar de pé, cartesiana milícia enfileirada, obediente filha da pauta? Por que a poesia não pode ficar de quatro e se agachar e se esgueirar para gozar - carpe diem! - fora da zona da página? Por que a poesia de rabo preso sem poder se operar e, operada, polimórfica e perversa, não pode travestir-se com os clitóris e balangandãs da lira? Waly Sailormoon Fique com essas por enquanto, e me responda depois do relatório. Ah! braços, cass. posted by LAURO MARQUES | 11:21 Comments: 26.7.04 Da Tese -Fragmentos - O Problema da arte LAURO MARQUES Dizer "satisfatório" não basta, é preciso dizer satisfatório para qual fim? E aí entramos no problema da arte. Melhor do que dizer que a arte não tem fim, é dizer que o fim da arte é ela própria. Ora, estamos supondo que toda arte é "verdadeira", ou que toda verdadeira arte é verdadeira. Todo verdadeiro poema é um argumento significativo. Se a vida da ciência é o desejo de aprender, ninguém mais sabedor disso do que o artista. O artista sempre acha que falhou, que ele pode melhorar. "Minha melhor obra é a última". O artista é o eterno insatisfeito. E permita-me discordar de que a arte não precisa ter coerência ou ter comprometimentos quaisquer a não ser imaginar, o que quer que seja. "Não surrealista, não! Mesmo o poema mais doido deve ter, como na prosa, alguma base firme no senso comum." --- W H Auden, Poemas curtos II Eu não posso simplesmente escrever no papel Uila lá lá uila la lá! e dizer que isso é o melhor poema já escrito desde Homero. Seria incoerente e absurdo, ainda que eu esteja sendo imaginativo em dar esse exemplo. A arte não é uma atividade descompromissada, a não ser no sentido que só obedece as suas próprias regras, às quais no entanto deve se apegar, sob pena de deixar de ser arte. posted by LAURO MARQUES | 02:20 |
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