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6.5.04
Um conto do Poeta Soares Feitosa sobre o nascimento de uma amargura e Índice do Jornal de Poesia - mais de 3.000 poetas e críticos de literatura
Joelhos e Mel por SOARES FEITOSA
(Quadro de Manet, Monsieur et Madame Manet, 1860)
Veja, sou doido por mel de engenho, com farinha. Com cuidados porém, que essa mistura tem ciências. O mel não pode ser por demais espesso, nem muito fino; nem a farinha, peneirada, também não por demais caroçuda. Em suma, uma coisa deliciosa, porém cheia de manhas.
Então, o jovem sentava-se à mesa e comia morige-radamente. A mãe vinha com o prato vazio à sobremesa. Ele botava um pouco de mel e, por cima, a farinha. Mexia, de muitas voltas. Remexia.
--- Mãe, mais mel... está duro demais.
--- !
--- Mãe, mais farinha, que está muito fino...
--- !
--- Mãe, mais mel... mãe, mais farinha... mãe, mais...
O ritual de «mais-mãe, mais-mel» se repetia, muitas e muitas vezes, até que o prato (a rigor, um alguidar, imenso) completamente cheio de mel com farinha, ele entendia que "ponto" da mistura estava ótimo.
Quando ele aprontava-se da colher à primeira bocadada, a mãe levantava a mão --- um instante, meu filho! e, no mesmo silêncio, passava-se-lhe para as costas. Ele já sabia: soltava a colher, já cheia de mel, dentro do prato de mel; jogava as mãos para trás, e ela, num gesto de grande dor (nela, mãe; nele, já nenhuma), espetava-lhe gentil e rapidamente a polpa de um dos dedos. Sem dizer palavra, conferia, na fita de medir; e, enlaçando-lhe os ombros com as duas mãos, retirava, no maior silêncio, por cima da cabeça dele, o prato transbordante de mel.
Até que, um dia, repetido todo o cenário da sobremesa, ela, em vez de enlaçar-lhe os ombros e puxar-lhe intacto o prato de mel, retornou à mesa, pegou a menor das colherinhas e tocou-a com a parte de baixo no mel, na parte mais mel, só o convexo porém, pelo lado de fora:
--- Meu filho, a dosagem está suportável.
E os joelhos de ambos foram insuficientes para tanto amargo.
Em A Pintura como Arte, Richard Wollheim (Cosac & Naify, 2002) desenvolve a tese de que o interesse especial de uma série de retratos de grupo de Manet se dá por causa do clima psicológico criado pelo artista, em que os personagens são figurados em momentos de absorção mental e alheamento, em meio a cenas familiares. Manet conseguiu transmitir uma sensação de ausência momentânea, de alheamento, e retraimento, por meio de uma forma especial de captar relações fugazes entre os membros do grupo. Esse clima efêmero foi obtido pelo olhar oblíquo, o olhar que se desvia dos outros olhos. Como no célebre O Balcão, vemos um grupo de pessoas que a despeito da grande semelhança física não se comunicam entre si. Na série de fotografias da Tate Galery, da década de 90, exposta recentemente na OCA (*), em São Paulo, especialmente naquelas de Sarah Jones, é possível constatar a mesma temática psicológica sendo desenvolvida de maneira semelhante à solução de Manet. [A incomunicabilidade e a ansiedade em família é o tema ainda de outros artistas da YBA, como nos vídeo Sacha and Mum de Gillian Wearing, que também faz parte da mostra.]
Nada salva, diz Godard em Carmem. Nem mesmo a arte, ele quer dizer. Talvez porque "salvação" seja a melhor maneira de perder-se.
Também Baudelaire não esperava melhorar a sociedade, ou pelo menos, não alimentava muitas esperanças nesse sentido. E por isso mesmo é atravessado por um sentimento de spleen, melancolia, bem moderno, afinal de contas. (Muito embora ele o tenha feito, com as Flores do mal, subvertendo o sentimento geral, melhorando-o, por perversão, como toda grande obra de arte, segundo diz André Gide, na apresentação das traduções de ensaios de Oscar Wilde, por João do Rio, Imago, 1992:16.)