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A Mácula
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8.10.03 "Devemos entrar na morte como quem entra numa festa."

Jorge Luis Borges




A horda dos assassinos, bárbaros, uma nuvem negra avança.





REVOLUÇÃO
(A busca pelo céu)

De Lauro Marques



INTRO:

A alquimia das formas. Noites perdidas de insônia. Um abismo me separa do mundo agora. Busco as alturas. Folga-me ver tão distante --- antes que rompa a aurora.




Vi o mundo dos fogos de artifício. Achei-o impenetrável. Deram-me de comer os ossos e eu lhes pedia carne! Romperam comigo todos os meus laços. Procurei novas formas de vida. A humanidade parecia cansada. Arranquei-lhes um último suspiro.

Àqueles implorando perdão eram os seus deuses. Homens tolos sem imaginação. O céu ameaçava cair. No inferno reinava a paz, eram temidos. Não lhes incomodava a enxurrada de preces ---

A mensagem chegou até mim agora. Ah, a preguiça, a lascívia, a lentidão! Como compor sem ser atormentado? Ah, a inércia! A realidade, o ópio das massas! Uma greve de relógios e o tempo pára. Rumo ao Norte! Já é tempo de se ouvir meu chamado.

§

Uma visão há muito restrita. Era a glória dos ineptos. Os céus pareciam fechados. Prevejo uma enxurrada. Haverá sábios sobre a terra. "Erra o homem enquanto se esforça". O novo conhecimento! A taça transborda. A nova linguagem será cifrada.

§

Os temores do sexo. A mim já se ia larga vantagem. Buscava o conforto na poesia, na letra morta. Salvaguardava a mim próprio. Abandonei todos os cursos. Aviltava-me uma idéia. Quis compor uma obra de fôlego... Vi cair um a um todos os meus sonhos ---

A reconstrução dos corpos! Partirei do princípio novo. Contarei uma história antiga --- o domínio das técnicas! O rumor das ondas!
Tudo aquilo me exasperava.

§

Quero feder, exalar todos os malcheiros do meu corpo. Agora estou no topo de minha covardia --- e eis que me apraze. Despi os sete véus de minha loucura. E fui exorcizado. As melodias e os sons me agradam. E os ruídos... Ah, os ruídos! Que bela forma de matar o silêncio!

§

Eu era judeu três mil vezes maldito. Principiava a conhecer a mim próprio. O TRÁFEGO DAS ILUSÕES, A VISÃO REPENTINA, O FRACASSO DAS FORMAS --- SANTOS EM COMUNHÃO AO PÉ DO ABISMO. Impropérios. Desenvolvi então um sexto sentido: o sentido das coisas --- uma idéia que não foi ainda bem trabalhada. Construirei algo em cima das reticências... Causa-me horror a transparência das fórmulas acabadas --- A multidão se agita, teria algum sentido naquilo tudo? A crueldade é um vício --- Um corte rápido, uma quebra no ritmo --- Ah, a soberba ignorância! Os deuses pareciam maiores vistos de longe.

§

Minha insensatez era agora imensa. Assim como minha má vontade. Busquei trabalho pesado! Fui cem vezes execrado e infeliz na escolha. Vamos direto aos fatos: Sou eu tal como a abelha no labirinto à procura do mel. Uma vez apreendido o caminho, não torna a recair no erro. Um exemplo prático. Eu que odeio a praticidade! Fosse-me dado escolher novamente! Que ciência inexata! Que aridez de princípios! A força que me impulsionava me punha a recuar. O esvaziamento das idéias, meu maior temor. Punha-me a delirar. A lucidez há pouco perdida. Travo batalhas comigo mesmo... A continuidade perdida! Extasiado aos pés da loucura, rogo o perdão das minhas dívidas.

§

Realmente eu estava enciumado. Um pouco mais e eu os ultrapassava, os tolos. Ah, maldita seja a mediocridade! Poucas vezes me senti tão culpado. Eram troças e pândegas o que eu fazia, o sentimentos me estagnavam --- Olhei para cima de mim mesmo e vi as nuvens e abaixo de mim as nuvens --- Ah, mas quem vai realmente compreender isso? Que linguagem mais tosca essa minha... A pérola na boca do peixe é alimento... Enfermidade... Eu devia estar enfermo. Elaborei toda uma teoria em cima de sofismas.

§

Os temores agora estão em larga escala. O meu físico me aborrece com as suas fraquezas. Há muito tempo não punha na boca nenhum veneno --- nenhum forte o bastante. Satisfazia-me com o pouco que restara da dor que eu experimentara antes --- E mesmo assim não era o bastante! Deuses! Gigantes! Clamo de vós a memória! Ah, os exageros da forma... Ócio nenhum me seria mais custoso.

§

E tinha os perigos do desenvolvimento... Ah, e as trovas... Que belas canções e roteiros! Fui completamente tomado por seus espíritos. Era eu ali apenas mais um peão num jogo de damas. E como me sentia estúpido! Ah, se meu coração parasse agora... Que sensação mais vaga de ânsia! --- Esse é o meu corpo, essa é minha alma. Não pode vê-los? Estão juntos! --- Deixe-me esvair agora... Vou trôpego, como não? É tão distante tal sítio? Haverá caminho sem volta? Todas as minhas dúvidas postas de lado, que valor eu tenho? Resta-me o consolo dos fracos, o perdão dos necessitados, odeio a todos! Fuga essa tão estranha... Recriarei a ordem dos fatos: 1º) O que há para ser criado?; 2º) O que há para ser destruído? Estarei me repetindo? Convençam-me. É inútil a essa altura qualquer análise. Nenhuma delas me parece justa... Falta-me fôlego. Chamem os médicos, internem-me. --- A eternidade não me parece o suficiente.

§

Quando tudo acabar dormirei cem dias. Ah, mas que falta de brio! No paraíso escarnecem de mim... A terra tal como é me foi negada --- Um cachorro anda três vezes em círculo antes de se deitar --- Sanaram todas as feridas! Eis aqui as chagas! A vida inteira foi uma brincadeira atroz. A morte uma dívida não paga. ---Cristãos! Ressuscitai-me!

§

Já me vou longe agora... Que bela embrulhada eu me meti! São cem léguas para um pobre andar! Dêem-me água! E não esse vinagre! Mas chega! Todos os pedidos soam falsos, todas as preces são injuriosas, antes a morte honrosa à súplica... Como? Já amanhece? É tão tarde? É a noite? Consumiu-se assim mais de uma hora... Ainda me recordo de minhas palavras ontem. Uma onda me trouxe até aqui. Pois que me leve de volta! Ah, que céu sem nuvens! E as quero pesadas! Não se chove mais em terra tão árida. Onde estão teus frutos ò tão bela árvore? Ah, mas vejo agora, tuas folhas, tão ressecadas! Por que tudo que nasce também morre? Cresçam saudáveis as crianças! Engordem o peru antes de matá-lo! Que discussão sem propósito! De tal efusão não sairá nem um caldo, tampouco um lenitivo para a alma... E o que se espera que se faça? Acha-se graça então... Fora do mundo! Um mundo!... e partem os navios em busca do ouro...

§

Quantas glórias eu terei perdido, quantas vezes eu me vi como agora? É preciso um caminho que se trilhe... Uma carga pesada nas costas! E lá se vai o infeliz... O arcabouço de uma história...

§

Haverá outro lugar? Uma terra estranha? Pois leve-me daqui... Quero visitar tal país! (Tenho dois olhos e enxergo tudo.) Vida que prossegue... Do fundo do palco ouvem-se risadas...

§

Experimentem isso agora. Ponham-se no meu lugar. Acham justo? Ah, mas sei que gostariam de me roer os ossos se pudessem fazê-lo. Cambada de preguiçosos! Querem algo mais vulgar? Mudo os cenários, transponho a peça... Ah, mas não adianta... Ainda seria eu mesmo. Um pouco de ar... Não me abandone o espírito... Mas eis que torna. Ainda impuro? Regalia-me as de sujeiras as mais execráveis, é disso que eu preciso. Os maus odores, as glândulas sebáceas... Flagrei-te mesquinho, o diabo não me escapa mais... E que vias percorre? As ruas desertas... Aqui estás sozinho, não há ninguém nesse hemisfério. Mas não me dou por vencido. É preciso ir mais além...

Que dia especial é hoje!

(À minha frente há um deserto. Só meu senso de humor me permite ir adiante... Uma nova idéia! Corri até a janela para ver a banda das almas brancas subir o morro --- Os céus?).
posted by LAURO MARQUES | 00:43

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