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A Mácula
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20.9.03 O texto abaixo O Inconsciente no Século XXI* é um fragmento do texto de Oswaldo Giacoia Junior ** em que ele discute o Aforismo 354 da Gaia Ciência, citado no post anterior (clique aqui para ir direto para esse post, ou role a página).
(Bispo, releia os comentários ao post anterior, pois fiz algumas modificações às minhas colocações).
O texto inteiro pode ser lido em

O inconsciente no seculo 21

* - Texto publicado no site Instituinte em 26 de julho de 2002.

** - Oswaldo Giacoia Junior, bacharel em Direito pela USP, é doutor em Filosofia pela Universidade Livre de Berlim e livre docente em Filosofia pela Unicamp, onde é professor.
Autor de Os labirintos da alma, EdUnicamp, e Nietzsche, Publifolha. E-mail: giacoia@tsp.com.br

---- início da citação
"O problema do ter-consciência de si (mais corretamente: do tomar consciência de si) só se apresenta a nós quando começamos a conceber em que medida poderíamos passar sem ela: e é nesse começo do conceber que nos coloca a fisiologia e a zoologia ..." 11


De acordo com o texto, só podemos apreciar adequadamente o significado de "ter consciência" na exata medida em que percebemos em que extensão podemos prescindir dela. E não existe melhor forma de se inteirar dessa prescindibilidade da consciência do que através da fisiologia e da zoologia. De quase todos os processos fisiológicos fundamentais da vida vegetativa, e mesmo sensitiva, em geral, está ausente a qualidade psíquica da consciência.


E, no entanto, fisiologia e zoologia " precisaram de dois séculos para alcançar a premonição de Leibniz, que voava na sua dianteira." 12 Eis uma observação incidental, profundamente irônica, na medida em que Leibniz discernia na mônada, não apenas a perceptio (percepção) mas também o apetitus, ou seja, o impulso como característica; vale dizer, a imensa riqueza contida na questão do vital, do potencialmente orgânico - o duplo vetor, representacional e impulsivo, presentes, de maneira inconsciente, mesmo nas formações mais embotadas do mundo orgânico - era já uma premonição leibniziana que a fisiologia e a zoologia levaram séculos para recuperar.


"Poderíamos, com efeito, pensar, sentir, querer, recordar-nos, poderíamos igualmente agir em todo sentido da palavra: e a despeito disso, não seria preciso que tudo isso nos 'entrasse na consciência', (como se diz, em imagem)." 13


Poderíamos cumprir todas as nossas assim chamadas funções psíquicas superiores, tais como: querer, pensar, sentir, recordar, agir, sem necessidade do recurso à função da consciência. A própria expressão "entrasse na consciência", é uma expressão destacada por Nietzsche e que indica, com muita clareza, o caráter antropomórfico das nossas expressões usuais. Entrar na consciência, supõe pensar a consciência como uma dimensão espacial.


"A vida inteira seria possível sem que ela, por assim dizer, se visse no espelho: como, de fato, ainda agora, entre nós, a parte preponderante dessa vida se desenrola sem esse espelhamento - e aliás também nossa vida de pensamento, sentimento, vontade, por mais ofensivo que isso possa soar a um filósofo mais velho." 14


Não somente nossas funções vitais elementares poderiam continuar a desempenhar o seu papel sem a consciência - com o que concordariam todos os fisiólogos - senão que, mais ainda, nossas funções psíquicas "superiores", como pensamento, sentimento, vontade, afetividade, podem ter seu curso independentemente da consciência - por mais que isso soe ofensivo e ultrajante aos ouvidos de um velho filósofo, sobretudo se pensarmos que, de acordo com uma venerável tradição filosófica, o "eu", ou a unidade da consciência 'deve necessariamente acompanhar todas as nossas representações'.


Afirmar que pode haver representação, mais que isso, intuir um universo de pensamentos e sentimentos, volições, movimentos e atividades sem consciência - mormente se considerarmos a então corrente identificação entre subjetividade e unidade da consciência -, é uma asserção ofensiva para um filósofo zeloso da tradição.


Daí impor-se, pois, a indagação: "Para que em geral consciência, se no principal ela é supérflua? - Ora, parece-me, se queremos dar ouvidos à minha resposta a essa questão e à suposição, talvez extravagante, que o refinamento e força da consciência estão sempre em proporção com a aptidão de comunicação de um ser humano (ou animal), e a aptidão de comunicação, por sua vez, em proporção com a necessidade de comunicação". 15


Sabemos onde desemboca a argumentação de Nietzsche: consciência, sociabilidade, linguagem e comunicação se implicam mutuamente, do ponto de vista de sua gênese. A consciência se desenvolve sob a pressão da necessidade de comunicação, motivo pelo qual está essencialmente vinculada à comunicabilidade, à sociedade e à linguagem.


Por conseguinte, a consciência, assim como a linguagem que forma e informa os processos conscientes, representam apenas o recorte mediano, o comum, o comunicável, o social. A consciência é a qualidade daqueles processos psíquicos dos quais está ausente o estritamente singular, individual e único. Como os conceitos - as noções comuns que estão na base da atividade racional -, os fenômenos conscientes se estruturam em função da necessidade de comunicação, de modo que neles se expressa apenas o comunicável, que é produto da igualação do desigual, da supressão das diferenças, da abstração formada a partir do que é comum a muitos. Dito de outra maneira, consciência é, desse ponto de vista, necessariamente, falsificação do estritamente individual, porém indispensável para a vida em sociedade. Fazer dela o centro da subjetividade significa perder de vista qualquer possibilidade de acesso ao si mesmo. Esse processo se torna patente pela análise da estrutura da proposição.
---- fim da citação ---
Notas da citação:
11 - Nietzsche, F. A Gaia Ciência. Aforismo 354. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. In: F. Nietzsche. Obra Incompleta. 1a Ed. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, p. 224s.


12 - Ibid.

13 - Ibid.


14 - Ibid.


15 - Ibid.


posted by LAURO MARQUES | 12:35
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18.9.03 Nietzsche - Consciência
Anotações dispersas, diálogo com B.


B. - Na página 247 da "Gaia Ciência", parágrafo 354: "do gênio da espécie". Nietzsche faz um paralelo muito curioso e avançado para sua época entre o surgimento da consciência e a necessidade de comunicação. Fala até em signos. Parece Nietzsche leitor de Damásio e Peirce. Ele fala que o pensar consciente ocorre em palavras, mas logo depois amplia e fala em signos de comunicação. Lendo Damásio percebe-se a possibilidade de consciência para as imagens interiores não-comunicáveis.

L. - Muito complexo. Percebi também uma certa raiva de N. contra a consciência ser o lugar da mediação, do médio, que não é do indivíduo, pelo que entendi. Interessante a ressonância (um problema para nós: não basta ser ressonante, é preciso fazer música), eu vinha falando disso, sobre o pensamento não ser individual, Peirce fala de modo positivo, enquanto N. é pejorativo. Caberia, como sempre, como sempre, aprofundar... mas nós somos muito superficiais. É preciso ser superficial!
Sobre a expressão "conciência infeliz", no Dicionário de Termos técnicos e filosóficos: ela aplica-se em N., "à idéia de que a consciência psicológica é o sintoma de uma desordem na evolução e de má adaptação de um ser ao seu meio".

posted by LAURO MARQUES | 17:16
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17.9.03 Blague do dia: Nada Salva

Nada salva. Nem mesmo o Messias (o vinho), que quando acaba, podemos pensar, "ele voltará"!

posted by LAURO MARQUES | 17:26
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15.9.03 Câmara Cascudo

Foi lançado pela Perspectiva, um Dicionário Crítico Câmara Cascudo, R$ 45,00. A presente nota é só para eu não esquecer de comprar. Cascudo é para muito brasileiros, até mesmo para mim, que morei dez anos em Natal, um desconhecido. Deixou um número incerto de livros, alguns falam em "mais de 150". O Dicionário cita um romance, de título e conteúdo extravagante, e escrito, ao que parece, "num escuro quintal de sua casa, em Natal", chamado Prelúdio e Fuga do Real. Tentativas de classificar sua obra, o situam como tendo sido ao mesmo tempo "Folclorista, historiador, crítico literário, biógrafo, romancista, jornalista, antropólogo, poeta, musicólogo, orador, etnógrafo, professor, humanista e poliglota" que "pertenceu a todos os Institutos Históricos e Geográficos do Brasil."
Como pesquisador, sei que foi imbatível. Reproduzo aqui uma história que li sobre ele: Durante os blecautes da segunda guerra, pediu e obteve autorização da Aeronáutica para que a luz de sua biblioteca (acumulou 8 mil cartas e 12 mil livros) continuasse acesa, e não tivesse de interromper seus estudos, mesmo à noite. A despeito de sua ligação com o movimento integralista de Plínio Salgado - com quem em 1938, já havia rompido - e da possibilidade de bombardeio alemão ter sido remota, a história é bonita, pelo que tem de simbólico.
posted by LAURO MARQUES | 18:43

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